3 de abr. de 2006

A que ponto...

O Encontro do BID, o provincianismo e o pequeno Czar


Reza a lenda que a desconfiança do mineiro se deve ao fato de por muito tempo ter degustado as notícias de segunda mão. A Corte sempre esteve ali no litoral. Ainda, segundo a lenda, o jeito de ser sorrateiro do povo das alterosas também se deve a esse, vamos chamar, complexo interiorano.

Está na hora de acrescentar mais algumas observações de fatos recentes que corroboram a lenda. Pelo que se vê em Belo Horizonte por esses dias, dias de Congresso do Banco Interamericano de Desenvolvimento, simplesmente BID, a coisa vai ficar complicada se algum dia a capital mineira sediar um evento de âmbito mundial, neste caso a opção será clara, abrigar temporariamente a população de BH em outra cidade. Chegou-se ao cúmulo de cogitar o fechamento da Avenida Afonso Pena, a principal da cidade, ao trânsito de pedestres. Temia-se um ataque terrorista.

Com o perdão do ?Estado de Minas?, o grande jornal dos mineiros, mas um ataque terrorista em BH não seria primeira página no The New York Times. Isso é substimar a inteligência terrorista.

Em sua mais legítima vontade de apresentar-se como bom anfitrião, o Governador Aécio Neves, fez de tudo para mostrar aos diretores do Banco o estupendo estágio de avanço da civilização mineira, decidiu, as três da tarde leva-los ao Mineirão para ver um jogo de futebol marcado para as nove e quarenta da noite. Até aí tudo bem, a eficiência logística da Polícia Militar de Minas Gerais se fez presente e, quando do início do jogo, anfitrião e convidados estavam dignamente acomodados em uma área vip construída em um par de horas e sob a guarda de um aparato de segurança digno dos que lá estavam presentes.

Fico a indagar meus mineiros botões, será que isso é realmente demonstração de civilização e eficiência ou nossos convidados, regressando a terra natal, não vão comentar que, quando aqui estiveram, foram recepcionados por um pequeno imperador que tinha todas as suas vontades atendidas e cujos súditos estejam dispostos a sacrificar sua rotina cotidiana para bem atender seus convidados.

Sou mineiro de um outro tipo, sou daqueles que, ao dá banquete, está sempre desconfiado se os convidados não vão sair falando da minha generosidade ou da minha falta responsabilidade por servir aos outros na festa aquilo que não gozo no dia-a-dia.

13 de mar. de 2006

Um Dedo de Prosa (literatura de autoria própria)

Os gatos do Guimarães
V


A morte é essencialmente imprevisível no que respeita ao momento exato que fique claro, não se fala da morte como uma probabilidade. É o que se costuma pensar. Entretanto, não era esse o aspecto do óbito que pacificava a alma de Dona Helenilda. A irresponsabilidade, a inculpabilidade, o ar de inocência às avessas que se sobrepunha sobre os resultados de todos os atos do vivente após sua morte era o guia do comportamento daquela mulher. Havia uma atração infantil, um que de transgressão em tudo que ela fazia. Sim, porque se está a comprometer as sólidas bases de uma moral, que nos mantém em convivência pacifica, ao se pensar na morte como uma libertação e se comportar em vida ao sabor do instinto, sem esperar por um julgamento póstumo.

Aos cinco anos, Dona Helenilda já sabia ler e a partir de então tomou os livros como companheiros, desenvolveu profundo zelo por eles e os abraçou como uma vocação, um chamado, um fazer no mundo. Em contrapartida a humanidade foi fendida em duas metades, de um lado aqueles que, como ela, viviam a orbitar os livros, sejam como senhores criadores, conservadores ou como servos leitores e os demais pouco afeitos aos labirintos das letras. Aos primeiros, a liberdade da biblioteca, a falta de ordem, o folhear errático e os saltos entre as citações, aos últimos, o cordão de Ariadne, desde o balcão da bibliotecária até onde ela achasse por bem dar tensão e resgatar o indigno viajante.

A aparente amabilidade para com todos os usuários da biblioteca escondia essa sutil distinção entre os homens. Para uns a bibliotecária facultava direitos, a outros servia, livrando-os dos riscos, mas com profundo desprezo. A dispensável ordem em que os livros deveriam ser dispostos era a cadeia da lógica impessoal, o meio de garantir ao comum dos seres, desarmado das habilidades literárias, uma segurança dispensável ao senhor das letras, que se guiava por instinto, por sua sensibilidade, algo avesso às lógicas impessoais.

Essa era a causa de uns não encontrarem os livros. Dona Helenilda nunca os organizava nas estantes, segundo as ordens alfabéticas e numerológicas impessoais, antes os volumes eram dispostos segundo os amores da bibliotecária, uns mais próximos para contemplação constante, objetos de ardente paixão, outros a meio caminho, como amores mornos estáveis em quem se confia a ausência do olhar constante, outros ainda mais afastados, quase perdidos, uns restos de relações um dia incandescentes e rapidamente extintas ou desgastadas gradualmente pelo tempo e, por fim, junto a parede ao fundo, alguns que nunca chegaram a ser notados ou que causaram profunda tristeza, que traíram, que mentiram e por isso foram abandonados e repousavam desprezados num horizonte distante como inimigos além da fronteira. E, é claro, tal ordem não respeitava uma estabilidade cronológica, a paixão de hoje podia facilmente tornar-se o traidor de amanhã e uma nova faceta do ser amado recém descoberta, transformava-o em objeto de obscuros desejos de uma intimidade próxima.

Também se explicavam assim, as furtivas visitas que Dona Helenilda fazia à biblioteca durante a noite. Após cessar o movimento das ruas, quando todos os viventes ou estavam temporariamente entregues aos braços da morte ou dedicados às artes reclusas, a mulher caminhava pelas ruas, evidentemente sozinha, mas adjetivo dispensável, porque como se sabe, era de sua natureza ser sozinha a qualquer hora, adentrava a biblioteca, tomando o cuidado de trancar a porta por dentro, não por medo de ser surpreendida, mas para evitar que um dia ou, melhor dizendo, uma noite ter de prestar desnecessárias explicações a qualquer um dos reles servidores que de dia maculavam o lugar com seu comportamento de monótonos trabalhadores à espera da hora da saída. Pela mesma razão, Dona Helenilda também não acendia luzes o que lhe causava grande desconforto, mas era largamente recompensado pelo prazer que adivinha das horas de leitura e manuseio dos livros em meio ao silêncio e a escuridão. Então, antes que os viventes despertassem da provisória morte ou os amantes se dessem por satisfeitos e as horas de trabalho chamassem a todos, Dona Helenilda deixava a biblioteca e trancava a porta, desta vez por fora, agora pelos motivos que movem a todos, para manter os ladrões deste lado.

7 de mar. de 2006

Um Dedo de Prosa (literatura de autoria própria)

Os gatos do Guimarães
IV


A biblioteca estava sempre cheia, a quantidade de leitores que freqüentavam aquela biblioteca fazia inveja a outras unidades semelhantes. Era possível encontrar títulos com listas de até vinte leitores na reserva. Dona Helenilda atendia a todos e os conhecia pelo nome, além de estar sempre disposta a receber novos interessados. Era uma entusiasta dos benefícios da leitura para a educação e o progresso de um povo, mas não chegava a ser militante das grandes causas, limitava-se a fazer seu trabalho com eficiência, atendendo com toda a dedicação e presteza a todos os leitores.

Um desses leitores novos, um menino cuja aparente idade denotava que acabara de ser iniciado no mundo das letras, em suas primeiras visitas à biblioteca tomava logo o rumo do fichário de autores, jamais se soube porque ele não se interessava pelo fichário de títulos. De toda a forma o menino dirigia-se fichário de autores, escolhia, tomava nota com o lápis que ficava amarrado com um barbante sobre o fichário junto com uma caixinha onde havia retalhos de papel, constantemente reabastecidos por Dona Helenilda e, encaminhava-se para as estantes. Invariavelmente, nas primeiras visitas à biblioteca, o menino retornava das estantes com as mãos vazias e um olhava que informava, até para o mais insensível dos homens, a incomensurável decepção de não se achar algo por que se buscou.

Nesses momentos, o recurso imediato era Dona Helenilda, que estava sempre à disposição. Qualquer outra pessoa não se daria por rogado e diante de tal rotina de insucessos, passaria a desencorajar o leitor, que incapaz de encontrar os livros, jamais poderia lê-los. Afinal qual a dificuldade da tarefa de, estando de posse do nome de um autor, encontrar a ficha que lhe corresponde, nela elencar os títulos que lhe interessam para, em seguida, procurar o código do título e com ele se buscar às estantes devidamente organizadas, segundo a ordem numérica e lógica e, com as correspondentes etiquetas a indicar o caminho, a direção, o endereço o destino daquilo que se busca?

Tenha a santa paciência, some-se a isso o fato de todo o trabalho e dedicação depreendidos na organização de harmonioso sistema de buscas, estamos diante de um evento desses que deixa qualquer cristão possuído pelo senhor dos infernos. Mas Dona Helenilda não sentia ódio, ela não. Respondia a mesma pergunta quantas vezes ela fosse feita. O nosso menino então, pode ser que estivéssemos distraídos um dia ou outro e não tenhamos percebido e contado, mas foram bem umas dez ou doze vezes que ele se dirigiu a Dona Helenilda, sempre do mesmo jeito. Não encontrei o livro. Acho até que ele nunca encontrou um livro sem ajuda dela, mas todas as vezes, e isso podemos afirmar, ainda que correndo o riscos de termos nos distraído um dia ou outro, todas as vezes Dona Helenilda saiu do balcão, foi até a estante e os dois voltaram com o livro desejado. E a decepção daquele olhar anterior, agora era admiração e agradecimento.

Tem ou tem razão essa mulher em relação à adequação dos elementos concorrentes com os resultantes da educação. A paciência, a admiração, o agradecimento são as bases do caráter do bom mestre, não há quem não aprenda encontrando um mestre com esses predicados e, como resultado, a educação liberta, emancipa e ilumina o caráter do discípulo. No nosso caso, concorreu significativamente a atitude docente de Dona Helenilda na emancipação do menino em questão.

A prova do que se diz, já que para os incrédulos tudo tem que ter uma prova, a ciência não deve nega-las e a rotunda afirmação anterior ganha ares de teoria, é que o menino passou a ser um leitor regular, dia sim, dia não estava na biblioteca em busca de um novo livro, lia um livro a cada dois dias religiosamente, se é que religião necessita de tamanha carga de leitura. Mas isso, antes de provar a teoria pedagógica nunca escrita de Dona Helenilda, era a gratificação do trabalho e da dedicação daquela mulher, era o que tornava digno e válido o esforço cotidiano daquela servidora, porque certamente, já que estamos no campo das teorias, surgirão aqueles a dizer que paciência, admiração e agradecimento são os fomentadores da idolatria e da tirania cegas e que alguém que mesmo lendo um livro a cada dois dias, toda a vez que vai a biblioteca, recorre a bibliotecária para encontrar um livro não é livre, nem emancipado em nenhum dos sentidos dados pelo dicionário ou pelo uso corrente dessas palavras.

4 de mar. de 2006

Um Dedo de Prosa (literatura de autoria própria)

Os gatos do Guimarães
III


Falando assim, como se vem falando do senhor diretor, até parece que o homem era um trabalhador menos dedicado, os mais atentos diriam até que o homem era relaxado mesmo, um preguiçoso. Nada mais leviano, ninguém chega a diretor assim, à toa, sem mais nem menos, quando pouco o sujeito precisa ser bom bajulador e há casos extremos em que além disso, a criatura acumula predicados de competência. Então, alto lá, o diretor da biblioteca era um homem talhado para o cargo, tinha perfil, como se diz atualmente, podia não ter lido muitos livros, lera alguns poucos é verdade, romance, romance mesmo, lera umas histórias de detetive, científicos ou filosóficos, os tinha em casa, numa bela estante que ficava logo na sala de estar, não havia como ignorar, era um homem de notório saber.

A administração da biblioteca era algo do qual não se podia fazer qualquer queixa. As verbas, para iniciar pelo calcanhar de Aquiles de qualquer administrador público, tinham prestações de contas impecáveis, invariavelmente somavam-se entradas e saídas, créditos e débitos, restos e acertos e nada, nenhum erro. O pessoal sempre satisfeito, motivado e produtivo, bastava ver como a biblioteca funcionava, nenhuma queixa por parte dos leitores, se houvesse um índice de satisfação medido em sorrisos e gargalhadas, o comparecimento à cantina, note bem, a qualquer hora do expediente, constatava o bem estar dos funcionários daquela biblioteca. Um exemplo para a administração pública. Soma-se a isso, o fato, já mencionado, de que essa competência era exercida sem que o diretor se quer precisasse abandonar sua sala ou mesmo levantar-se de sua cadeira. O apreço e o respeito dos demais funcionários por aquela figura era tamanho que, além de Dona Helenilda que, como se sabe, não ia à cantina, o diretor também recebia seu café em sua mesa com direto aos biscoitos água e sal e manteiga.

Agora, o melhor adjetivo aplicável àquele homem era, sem dúvida, democrata. Desde o primeiro dia em que assumiu o cargo, desde o primeiro momento, quando fez um discurso inaugural, logo após a nomeação, suas primeiras palavras foram, estou diretor, sou funcionário como todos os demais, minha gestão será marcada pela democracia e participação. Essas podem ser palavras ensaiadas, da boca para fora ou chavões, como se diz por aí, mas no caso de nosso diretor, foram postas em prática e o dia-a-dia da biblioteca o servia de testemunha, não se tomava uma só decisão, por menos importante que fosse o assunto, sem que todos se reunissem para debater, mesmo nas emergências, quando o rigor da hora obrigaria a qualquer outro usar de punho ditatorial, o diretor ouvia serenamente as críticas. Pode-se acusa-lo de tudo, mas não era um homem de idéias fixas, fechado a inovações, muito pelo contrário, mudava de idéia sempre, tudo a bem da boa administração e da satisfação dos contribuintes, os verdadeiros guias do serviço público, como fez questão de afirmar ao final do já referido discurso.

3 de mar. de 2006

Um Dedo de Prosa (literatura de autoria própria)

Os gatos do Guimarães
II

Aqui, ali, acolá, sempre prestativa. Dona Helenilda era um faz tudo na biblioteca, atendia, guardava livros, organizava fichas, limpava, pintava e bordava. Um dia o diretor questionou-se da necessidade de tantos funcionários para manter a biblioteca em funcionamento. Desnecessário dizer que essa era a principal razão das intrigas contra aquela exemplar funcionária e que, em se tratando de repartição pública, jamais qualquer plano de reestruturação do quadro de pessoal seria posto em prática.

Um batalhão de arquivistas, restauradores que preferiam ser chamados de técnicos em manutenção do patrimônio, e até faxineiros habitava a biblioteca. Todos chegavam depois de Dona Helenilda e só começavam a trabalhar no momento em que o ponteiro do relógio que ficava preso no alto da parede do saguão da biblioteca se sobrepunha ao número XII, até aí era um burburinho de conversas e risadas que preenchia do saguão. Às sete horas, em ponto, o porteiro abria as portas, modo de dizer, que era só uma porta, que dava da biblioteca para a via pública. E tarefa de porteiro resume-se a abrir e fechar as portas, então o homem, na forma da lei, se dirigia para a cantina e de lá retornava às dezessete horas para fechar as portas, e como as abria, as fechava, estivesse alguém querendo entrar, só entrava após as sete, estivesse na biblioteca, se retirava antes das dezessete.

A cantina, o coração do dragão, era um burburinho só, o dia inteiro. A copeira, dedicada e prendada funcionária, provedora de diários seis litros de café, era testemunha viva do rigor do serviço público, única pessoa a ocupar um posto na biblioteca vago após uma demissão de outro servidor por incompetência. A copeira anterior fora demitida a bem do serviço público, fazia um café intragável. Assim que chegaram as primeiras denúncias, o senhor diretor nem mesmo promoveu o chamado inquérito administrativo, de certo que ele próprio conhecia a falta de capacidade da funcionária, tratou de expedir ofícios e despachos e logo a mulher estava na rua e sua substituta contratada.

A atual copeira era mulher de ciência, em sua primeira semana tratou de fazer minucioso levantamento dos gostos de todos os funcionários, forte, fraco, preto, suave, com muito ou com pouco açúcar, amargo, com adoçante, em copo, em xícara, com leite ou puro. Havia a certeza de que ao se encostar no balcão da cantina, se receberia exatamente aquilo que se queria, ninguém mais precisava fazer pedidos minuciosos. Em poucos dias, todas as garrafas térmicas estavam com etiquetas. Assim, ficou fácil saber porque a copeira anterior fora demitida. Sobrou um único desafio ao cuidadoso e detalhado levantamento, Dona Helenilda. Para esta, tanto fazia, jamais notara na copeira que fora demitida, constantemente esquecia-se de tomar o café que lhe era trazido, abandonava-o para ser recolhido e jogado no lixo. Zelosa de seu trabalho, a copeira chegou a interroga-la, se não gostava do café e testou diferentes receitas, mas sem sucesso. A conclusão era cientificamente clara, Dona Helenilda era indiferente ao café.

Dia após dia, essa era a rotina da biblioteca, os leitores eram atendidos, faziam seus empréstimos, suas devoluções, pagavam multas, faziam inscrição, procuram livros para pesquisa e para diversão ou vinham apenas para ler o diário. A biblioteca sempre cheia, jovens estudantes, donas de casa ou idosos à procura de um passa-tempo.

2 de mar. de 2006

Um Dedo de Prosa (literatura de autoria própria)

Os gatos do Guimarães

I


Dona Helenilda era dessas personagens prontas, dessas que Veja elogia abundantemente, não precisava inventar nada, o verdadeiro sonho de autor. Um corpanzil embrulhado na chita mais extravagante, cabelo em coque preso por um lápis, óculos de armação de tartaruga e, mesmo nos dias mais frios de inverno, uma gotinha de suor percorrendo a fronte.

O melhor de tudo é que Dona Helenilda estava sempre na biblioteca, todos os dias era a primeira funcionária a chegar, o diretor há muitos anos já lhe confiara as chaves, das quais não havia outra cópia. Pontualmente, as sete da manhã, ela já estava atrás do balcão. Eficiência ímpar, elogiada até pelo Governador. Qualquer livro que se quisesse, bastava pedir que Dona Helenilda indicava a estante. Sem exageros, mas naquela época não havia computadores.

A eficiência de Dona Helenilda só se comparava com sua modéstia. A mulher era uma referência, espécie de ponto turístico. Quando alguém recebia uma visita, logo levava o recém chegado à biblioteca. O forasteiro, claro, era só exclamação de espanto. Como podia aquilo, um livro após o outro, todos ela sabia onde estavam. Que memória! Nada, meu filho, não lembro de nada, é só organização. Pura eficiência e modéstia.

Entre os demais funcionários da biblioteca a admiração não era um sentimento unânime, havia um ou outro que dizia que Dona Helenilda chegava mais cedo porque morava a paredes meias com a biblioteca, que ela só sabia a localização exata de todos os livros, porque era sempre ela quem os arrumava. Alguns desses, por assim dizer descontentes, até chegavam a fazer queixas ao diretor. Mas o homem nem se dava o trabalho de levantar da cadeira, apenas dizia que faria averiguações das faltas denunciadas, mas nunca inquiriu Dona Helenilda. Para dizer a verdade, se não notássemos a entrada e saída do diretor no início e no término do expediente, seriamos tentados a afirmar que o homem dormia na biblioteca, sentado na cadeira, atrás da mesa onde havia uma bem polida placa de metal sobre um pedestal de madeira onde se lia DIRETOR.

As intrigas sempre chegavam aos ouvidos da zelosa bibliotecária. O cafezinho precisava ser embalado por alguma conversar e o assunto circulava por amenidades mil e por horas a fio, enquanto os funcionários se revesavam na cantina, antes de eleger o cotidiano da repartição como o grande assunto. Nessa hora formavam-se duas facções. Uns que davam a conhecer as intrigas, inconformados com as injustiças das acusações caluniosas e outros, é bem verdade a minoria, sempre a propalar as alegadas faltas de Dona Helenilda, à espera de seu descontrole ou de uma reação menos educada, para aí sim, trazer à tona o verdadeiro caráter daquela senhora. Mas, em vida, Dona Helenilda jamais motivou tanto, era só serenidade, nem na cantina aparecia. Só tomava café quando a copeira lembrava-se de levar-lhe uma xícara até o balcão ou entre as prateleiras, onde estava arrumando os livros.

28 de fev. de 2006

Polis (Imagens e Palavras)

O Haiti é aqui?

Quando o Brasil contribuiu para a estabilização do Haiti e o estabelecimento de uma autoridade democraticamente legítima naquele país, o país - por ser líder das forças de paz - e ONU tiveram a oportunidade de realmente iniciar um processo histórico novo, desvinculado do passado de abusos e golpes políticos que marcou a história haitiana desde a independência em 1804 ou 1820 (como queiram).

O que se viu desde então foi uma sucessão de erros (a incapacidade das forças de paz de garantirem a paz, a incapacidade dos órgãos de ajuda humanitária em debelar a fome crônica, o suicídio de um general - consciente de suas limitações e da exposição desnecessária de suas tropas - e, por último, mas não menos importante, uma eleição meia boca que vai desestabilizar o futuro da nação haitiana). Erros, é um eufemismo, um modo polido de dizer, um jeito de não trazer à tona os precedentes, os passos em falso que poderiam ser corrigidos.

Quando, em 2001, o presidente americano tomou a decisão de unilateral de declarar guerra contra o terror, não faltaram os baluartes do bom senso a dizer que a ONU deveria ser consultada (no mínimo), que o que Bush fazia era wanted dead or alive justiça far western. Pois bem, a Casa Branca foi adiante, depôs o talibã, organizou um governo novo no Afeganistão, depôs Sadan Hussein e também organizou um governo novo no Iraque. Em meio a bombas e fanatismo, o empreendimento americano trouxe uma nação da idade média para a civilização e resgatou outra dos idos da década de 40. Quem é o ignorante, o cowboy armado, quem garantiu, ainda que sob pena de romper temporariamente valores íntimos da cultura americana, que solo ianque não fosse mais machado por atentados terroristas, quem estava certo Bush ou Michael Moore, que lotou cinemas com o seu porcumentário (como foi bem definido nas páginas de PRIMEIRA LEITURA) onde desmoralizava a Casa Branca, quem?

É preciso lembrar à ONU que apesar do belo discurso da convivência harmônica entre diferentes, não é a civilização ocidental que tem rejeitado o resto do mundo. O palavreado fácil e irresponsável que corre pelos Fóruns Sociais Mundiais, arrota grandes bordões (Sistema Capitalista, Globalização, Imperialismo, etc.) como se a civilização ocidental fosse monolítica e houvesse uma grande inteligência a reger os atos de todos os homens e mulheres que vivem suas vidinhas cotidianas esquecidos de seu dever de opressores de povos menos afortunados. Se há tal inteligência, ela deveria se empenhar em um destino manifesto civilizador, transformador da cultura política arcaica e moribunda que foi desalojada na Europa e na América do Norte nos séculos XVIII e XIX, mas que insiste em manter-se em boa parte da Ásia, África e América Latina.

O Brasil e a ONU, ao darem um jeitinho na eleição do Haiti e deixarem de apurar as fraudes e punir os culpados, dando transparência à eleição e legitimidade ao novo governo, legaram uma herança de fome, ignorância, violência e instabilidade política àquela república. O Haiti não será melhor do que era após a intervenção da ONU.

9 de dez. de 2005

A Televisão Me Deixou Burro Demais

A Seguir, Cenas Dos Próximos Capítulos...

Por que será que deixaram de passar as cenas dos próximos capítulos nas novelas? Esta é realmente uma pergunta intrigante. Aposto que você nunca pensou nisso.
Eh, meu amigo, os tempos mudaram. Você deve estar pensando, lá vem ele de novo falar que antigamente era tudo cor-de-rosa. Pôxa vida, esse cara sabe realmente como estragar o momento. E hoje, é tudo ruim?
Sabe, uma coisa continua do mesmo jeito: a novela sempre acaba quando a gente quer ver mais. Mas, aí entra a abertura. Tá legal, abertura é no começo, no final é encerramento. E os créditos passam rapidinho. Vai dizer que você consegue ler os crédidos de novela? Ah! Por que não fazem uma abertura e um encerramento diferentes? Preciso pensar nisso.
Tudo bem, a novela acaba, começa o jornal ou o filme. As pessoas ficam sem assunto durante os comerciais e a abertura do jornal ou da sessão de cinema.
- Olha, você viu a mocinha na casa do mocinho nas cenas?
Qual era o problema com as cenas do próximo capítulo. Tem sempre um cara prático - dizem pragmático, que é mais elegante - para dizer tempo é dinheiro, em televisão tempo é muito dinheiro. Vai ver é por isso que os créditos passam rápido. Ah, mas as cenas nem demoravam tanto assim.
Sabe o que é pior, nem avisaram a gente, simplesmente deixaram de passar as cenas, assim, sem mais nem menos. Fazem plebicito e referendo pra tudo quanto há. Tinha que ter um plebicito - atenção senhores congressistas - para decidir se tem ou não que ter cenas do próximo cápitulo. Isso é que é questão de importância cívica.
E quando a novela acabava. No último capítulo, é claro, não tinha cenas do próximo capítulo. Aposto que quem é mais jovem ficou pensando isso: quero ver esse idiota explicar o que acontecia no último capítulo.
Oh, homens de pouca fé.... Tem gente que acha que mundo começou ontem, em 1999.
No último capítulo tinha cenas da próxima novela, tá bom! E também era muito legal, a gente via os novos personagens, ficava sabendo das novas tramas, tinha sempre o vilão que dava o tom numa cena chave... Isso também continua igualzinho, novela tem que ter vilão. Vilão com V maiúsculo.
Mas, por que será que acabaram com as cenas do próximo capítulo?
Uma coisa mudou, a novela sempre acaba, quando a gente não aguenta ver mais....

26 de nov. de 2005

A que ponto...


Ahh!

A mocinha fala toda empolga:
- A-r-t-i-s-t-a!
- É mesmo?
- Sou back vocal.
- O que é isso ?
- Artista, sua burra. Cantora.
- Cantora?
- Ã hã!
- Canta um pouquinho, então.
- Precisa ter um clima, você sabe como é?
- Canta vai....
- Não vai dar, mas vou te contar um segredo.
- O que?
- Sabe o "Ahh" do Kolynos?
- Do comercial?
- É. Fui eu quem fiz: Ahh! Viu?
- Cantora... Ah, tá.

25 de nov. de 2005

A Televisão Me Deixou Burro Demais

BOLINHA
Olha, a minha paciência realmente tem limites. Putz grila! Tava conversando com uns amigos hoje e quando falei do Clube do Bolinha, ninguém se lembrava. Dá pra acreditar numa injustiça dessas?
Edson Cury, o Bolinha, foi um dos maiores apresentadores da televisão brasileira de todos os tempos. O cara conduziu por mais de 30 anos. Vou repetir bem alto, TRINTA ANOS, um programa de auditório que rivalisou com o programa do Chacrinha - Tudo bem, o Velho Guerreiro era imbátivel -, isso ainda não é para qualquer Faustão ou Gugu.
O sujeito foi, à sua maneira, um revolucionário. A venda de produtos em chamadas do apresentador, isso que todo mundo faz hoje em tudo quanto é programa chifrin, o Bolinha já fazia e na vanguarda, o cara vendia supositório para prisão de ventre ou hemorroidas, sei lá (dentre outras tranqueiras como as Pirulas de Lussen, que sabe Deus para que servem), antes que qualquer um tivesse peito, ou bunda para falar de peido na televisão.
Jurados, tinha no Bolinha!
Mulheres de Maiô, tinha no Bolinha! Tinha uma bolete que não sorria. Dá para acreditar. Uma dançarina de programa de auditório que não sorri. E pior, o charme da moça era esse. O Bolinha chamava a criatura para frente, em destaque, e ela dava uns passos de dança, ou seja lá o que fosse, com a cara mais fechada do mundo. A mulher chupava limão com sal. Sucesso garantido.
Calouros, os melhores do Brasil, tinha no Bolinha!
E quando ele parava tudo e se dirigia para câmera. Perguntava, com a maior cara de pau: Você tem prisão de ventre? Tome IMESCARD. Enquanto uma das moças segurava a caixa de supositórios, à altura do rosto, em um sorriso, em close. O produto vendia. Duvido que bolete o usasse com aquele sorriso.
Todo sábado à tarde tinha:
"Bolinha, Bolinha! Está na hora de você entrar na linha.
Cantando bem, você ganha os parabéns,
Cantando mal, vá cantar no seu quintal.
Bol, bol, bol, Bolinha! Está na hora de você entrar na linha...."
Essa é a letra da música de abertura do programa. Uma perola de mal gosto poético.
Para não esquecer, Bolinha começou na Televisão como comentarista de "lutas" de telecatch. Em 1967, na TV Excelsior, passou a comandar um programa de auditório substituindo o Velho Guerreiro, que deixara a emissora. O programa mudou de canal, foi para a Bandeirantes e lá ficou até 1992. Depois, houve incursões esporádicas até a morte do apresentador, em 1º de julho de 1998.
O mais lastimável é que a TV não rendeu a Bolinha as devidas homenagens. Como muitos outros homens e mulheres que ajudaram a construir a industria da televisão no Brasil, Bolinha também foi facilmente esquecido. Sua morte pouco repercutiu e hoje, pode-se contar nos dedos quem, com menos de 25 anos, sabe quem foi Edson Cury.

23 de nov. de 2005

A Televisão Me Deixou Burro Demais (Mulheres 1)

Catherine Bach?
Falando assim você não lembra, não é mesmo?
E seu eu disser que ela estava sempre de shortinho jeans, que adorava o General Lee, que era o sonho do Sheriff e dos demais homens da lei, que era sobrinha de um fabricante de bebidas ilegais, que trabalhou de garçonete e até cantava... Ainda não lebrou?
Pois é, tem gente que acha que as gostosonas surgiram com a Beyonce, Britney Spear ou a Mariah Carey. Para essas pessoas não dá realmente para lembrar da linda Catherine Bach dirigindo um Dodge Charger vermelho, com a bandeira confederada pintada no teto.
A moça era tudo de bom. Entrava e saia do carro pela janela (o carro tinha as portas soldadas) com seus shortinhos de matar qualquer um.
A gente chegava da aula e já ia para frente da tv, para a Sessão Aventura, ver Os Gatões (Duke's Hazzard). Pena que ela não aparecia em todos os epsódios.
Era a Dayse. Acho que ninguém nunca se preocupou em saber que o nome da atriz era Catherine Bach. Dayse Duke estava muito bom.

22 de nov. de 2005

A que ponto....

Se você ainda se sente menor diante dos arrogantes argentinos, se é um cara que não gosta de futebol ou de mulher e por isso desconhece a nossa superioridade.
Bom, se você é um apreciador de cerveja, ainda tem salvação. Olha o que os argentinos acham que desce redondo....

Polis (Imagens e Palavras)

Para quem precisa de provas da eficiência do regime cubano. A foto abaixo comprova, sem sombra de dúvida que a vida em Cuba é muito boa e abundante.

Para quem não conhece ou não gosta, esta é Vida Guerra, a mais importante modelo cubana nos EUA e a prova de que o regime de Fidel é muito abundante.

A que ponto....


Tá legal. Você não gosta de balas. Não gosta nem de doces.... Detesta a prossição de vendedores no semáforo.... Mas, da bala chita você não escapa.
Bala Chita é um clássico.
Os bonitões da bala chita que o digam. O negócio atravessou gerações, nunca mudou a embalagem, nunca teve o sabor alterado, sempre o mesmo, sempre o tradicional.
Jamais se tornará um produto sofisticado, um daqueles cuja marca vira sinônimo de qualidade ou referência da substância, como o leite moça ou o bombril. A bala chita não, a bala chita é humilde, não está nas melhores casas do ramo. Chupar bala chita é vulgar, tem gente que faz escondido, que nega, que diz que nunca chupou, que nem gosta de doce. Tudo mentira, todo mundo já teve um pedaço da bala da maquinha grudado nos dentes, por que ela gruda.
Bala chita é a macaquinha rainha do semáforo com todas as honras e xingamentos também, porque é foda, quando os caras viram o retrovisor ao jogar uma discreta touceira amarela de bala chita sobre ele. Mas, pior que ter que ajustar o retrovisor é ter que comprar disfaçadamente. Porque gente elegante não chupa bala chita.

2 de nov. de 2005

No Escurinho do Cinema

Se quiser ser sugestivo, leve sua primeira namorada para ver Cobra
Olha o perfil da Criatura:
Nome Completo: Marion Cobretti (Fala sério, isso é nome de homem?)
Pseudônimo: (Com um nome desses, tinha que ter alcunha.) Cobra (No caso, não ajudou muito).
Cargo: Tenente de Polícia (Agora imagina o pessoal na delegacia chamando o cara. - Tenente Cobretti! Ou então, - Você viu Cobra por aí?)
Armas: 357 metralhadora ligeira com mira lazer, uma Colt 45.
Comida preferida: Carne Crua (Incluída a Brigitte Nielsen)
Peculiaridades: Óculos negros espelhados, um fósforo na boca, corta pizzas com um facão... (Um amor de pessoa.)
Perfil psicológico e político: Facista, racista, itolerante. De frases lapidares e um peculiar senso de justiça primitivo. (O próprio homem das carvernas.)
Em 1986, John P. Cosmatos dirigiu Sylvester Stallone e Brigitte Nielsen nessa maravilha cinematográfica que conta como são poucas as chances das forças do crime se perpetuar na presensa do diplomático Tenente Cobretti.
O lindinho assume a custódia da modelo loira, compridona e sueca, Brigitte Nielsen que, sabe Deus porque, está sendo perseguida por uma gangue de motoqueiros.
A história é a de sempre e depois de muita carnificina, sem que se explique porque os bandidos são tão ruins de pontaria e ainda escolhem essa profissão (desde o Rambo era assim).
O mocinho e a mocinha montam na moto e pegam a estrada em direção ao por do sol. Tudo muito original, não é mesmo?
Esse humilde escrevinhador levou a primeira namorada para assistir essa obra prima no Cine Brasil, com direito a fatia de pizza no Center Pizza da Afonso Pena e românticas viagens de ônibus. É claro que, apesar do nome sugestivo da película, não rolou nada, nem beijinho, a não ser no final, na porta da casa da moça, quando ela tomou uma atitude do tipo "cala boca e beija, seu otário".
Mas, tem clima para romance, sem dúvida: O Cobra + Cine Brasil e seus educados freqüentadores + fatia de pizza requentada do Center Pizza + um idiota que acha que entende de cinema + viagem em ônibus vermelho = Romance.
Pergunta se ela quis voltar ao cinema comigo.

27 de out. de 2005

No Escurinho do Cinema

A Nova Mitologia Pop

Uma pequena regressão, por favor.... A imagem começa a ficar desfocada e quando torna-se nítida novamente, nos deparamos com uma página colorida de uma revista em quadrinhos da década de 20 do século passado...
Esse não parece ser um início promissor para um artigo sobre cinema, ainda mais sobre A Nova Mitologia Pop, como diz o título, mas já justifico.
A nova mitologia pop são os bons e velhos super heróis que tomaram de assalto as salas de cinema do mundo inteiro, com maior intensidade desde meados dos anos 80 ou fim dos loucos anos 70. Porém, antes disso a vida pregressa dos homens de capas e ceroulas teve, e ainda tem, uma longa trajetória de papel e tinta.
O marco da carreira cinematográfica dos heróis de quadrinhos é o primeiro Batman de Tim Burton ou o Superman de Richard Donner. Não que não tenha havido incursões anteriores, mas essa, demarcada por esses dois filmes, criou uma nova moda que se auto-sustentou até nossos dias. Esse marco inicial é providencial, já que, nesse momento, temos que tomar o Batman Begins de Christopher Nolan como marco final e a comparação será inevitável.
Os elementos culturais atualizados no moderno super herói são os mesmos dos antigos heróis gregos. O sofrimento voluntário, a renúncia, a entrega e enfim, o amor ao próximo. O herói é, desde a antiguidade clássica, definido como alguém que gasta sua vida em feitos em prol de outros menos capazes ou injustiçados ou, em missões que lhe são impostas por forças além do seu controle. Também como os antigos, os heróis modernos são humanos: erram, mentem, enganam a si e aos outros e, talvez esse conteúdo faústico seja o mais saliente desta mitologia para os modernos expectadores e leitores.
Podemos dizer que as histórias em quadrinhos são o lar dos heróis modernos, não só deles, por que há um sem número de gêneros de quadrinhos que vão além do universo dos super heróis. Mas, o super herói moderno é dos quadrinhos por excelência e algumas peculiaridades dessa forma narrativa, com o tempo, tornaram-se indissociáveis do herói e ele delas.
O primeiro herói dos quadrinhos, nos moldes que conhecemos, foi o Tarzan de Edgar Rice Burroughs que foi convertido ao formato quadrinhos, já que é um original romance literário. O primeiro romance do personagem de Burroughs, Tarzan dos Macacos (Tarzan of the Apes), foi publicado em 1914 e contava a fascinante história de John Clayton III, o Lord Greystoke que, em decorrência de um naufrágio, quando ainda era recém-nascido, fica órfão na costa africana, sendo em seguida criado por uma família de gorilas. Os problemas de Tarzan - nome gorila recebido por Greystoke e que significa Pele Branca - iniciam-se quando ele tem contato com europeus, até então ele acreditava ser um gorila, talvez um pouco diferente dos outros, quem sabe só com alguns probleminhas de pele.
A obra de Burroughs tem sido alvo de todo o tipo de interpretação ao longo dos anos, havendo aqueles, mais fanáticos, que chegam a procurar e atribuir uma conotação política a Tarzan, dizendo que trata-se de uma metáfora para o poder colonial europeu na África. Particularmente, defendo que os conteúdos ideológicos-políticos são pouco desenvolvidos e quase irrelevantes para o autor, que não se empenha intencionalmente em expressa-los. Pode-se dizer, desse ponto vista, que Burroughs esboça uma crítica à civilização industrial, mas isso também é uma referência indireta que só é exposta frontalmente em desenvolvimentos futuros da obra, quando Tarzan acaba indo à Europa e não se adapta à vida "civilizada". A mais proveitosa leitura de Tarzan tem como elementos principais a aventura e o heroísmo.
Essa fabulosa saga não tardaria a ganhar, em 1929, uma perspectiva visual através dos quadrinhos inaugurando a era dos heróis nesse meio, inicialmente em tiras de jornais diários, as famosas comics - nome que decorre do fato de explorarem principalmente o elemento humorístico, apesar de não ser esse o caso de Tarzan - e depois em revistas próprias desvinculadas das publicações noticiosas.
Entretanto, apesar de ter habilidades notáveis oriundas de sua "educação símea" e de ser um herói com todos os elementos aludidos, Tarzan não é um super homem. Falta ao rei das selvas os poderes extraordinários ou super que nos anos vindouros tornar-se-iam o distintivo de um gênero de quadrinhos.
Apesar disso ou exatamente por isso, Tarzan ganhou uma série de adaptações para o cinema que até antecederam sua adaptação para os quadrinhos. Já em 1917, Elmo Lincoln interpretava na telona o Homem Macaco. Recentemente, são dignas de nota a adaptação de Hugh Hudson, Greystoke - A Lenda de Tarzan, O Rei da Selva, de 1984, com Christopher Lambert no papel título e, a ótima animação dos Estúdios Disney, Tarzan, de 1999, dirigida por Chris Buck e Kevin Lima.
Os super poderes são introduzidos como característica marcante do herói apartir de modelos como o Super Homem que estreia em junho de 1938, na revista Action Comics #1, criado por Jerome (Jerry) Siegel e Joseph (Joe) Shuster para a editora Detective Comics, a DC. O herói é um alienígena cujos os poderes decorrem da interação de seu singular organismo com o meio-ambiente terrestre, ou seja, a energia do sol amarelo da terra é acumulada no corpo do sujeito que funciona como uma bateria solar e abastece suas fantásticas capacidades. Os poderes do Super Homem são realmente extraordinários e incluem invulnerabilidade, força física colossal, vôo e diversos tipos de habilidades visuais como visão de calor e raios-x. Tais poderes representaram em inúmeras ocasiões enormes dificuldades para o realismo das histórias, mesmo nos quadrinhos. Sempre foi muito difícil lidar, por exemplo, com uma criança que tinha super força ou com o fato de ter que encontrar vilões à altura para confrotar o herói.
Também há quem faça interpretações políticas para a mitologia do Super Homem dizendo que o herói é sionista, uma vez que seus criadores eram judeus, nos primeiros anos os inimigos mais comuns do herói eram os nazistas, os nomes Kryptonianos, como Kal-El e Jor-El, soam como nomes hebraicos, a trajetória e personalidade do herói é inegavelmente messiânica, etc.
Super Homem e seus congêneres da DC reinaram supremos até a década de 60, quando uma nova geração de criadores como Stan Lee, Jack Kirby e Stive Ditko criam um novo panteão de heróis para a Marvel Comics. O Quarteto Fantástico, Homem Aranha, Incrível Hulk, X-men e outros heróis marvel tinha aventuras nas quais suas habilidades e atos extraordinários eram compensados por aspectos humanos de suas personalidades e vidas cotidianas e até tomados como maldições, uma clara alusão faústica do arquétipo do herói.
O sucesso dos heróis marvel que facilmente se identificavam com seus leitores, jovens e adolescentes que acabavam vendo nas "vidas privadas" dos heróis paralelos com suas próprias vidas, levou a DC ao contra-ataque.
A tradicional Detective Comics tratou de humanizar seus personagens e até mesmo simplificou seu panteão que havia desenvolvido todo o tipo de confusão cronológica e lógica que você puder imaginar como decorrência de mais de trinta anos de histórias e da aquisição de personagens de editoras menores que foram incorporadas o que dificultava o ingresso de novos leitores, que acabavam indo para o fascinante novo mundo da Marvel. Assim, em meados dos anos 80, a DC lançou a Crise nas Infinitas Terras, de Marv Wolfman e George Perez e, esse evento que tratou de viabilizar um competidor dígno para a Casa das Idéias.
A permantente dicotomia entre o heroísmo com e sem super poderes talvez tenha sido uma das características norteadoras das escolhas dos produtores cinematográficos, uma vez que os filmes com super heróis só passaram a ser mais abundantes a partir da década de 70. Tal escolha é facilmente justificável quando se colocam as dificuldades técnicas para executar de modo realista o vôo do Super Homem, por exemplo. Há outras dificuldades, digamos de cunho estético, que também contribuiram para isso. Os heróis das histórias em quadrinhos sempre pareceram muito infantis com seus uniformes espalhafatosos, vilões megalomaníacos, identidades e esconderijos secretos e tudo o mais. Houve muita resistência por parte do público adulto em aceitar aventuras quase irreais dos super heróis no cinema.
Há algumas explicações para a recente aceitação que o público adulto vem dedicando aos super heróis no cinema.
Inicialmente, adaptações como o Batman (seriado de tv e filmes da década de 60) estrelado por Adam West, juntaram os compontes irreais dos quadrinhos, como os vilões malucos e a psicodelia própria da época, em uma autocomisseração do herói que substutiu a aventura pelo humor e a autocrítica jocosa. Essa iniciativa suavisou, por assim dizer, algumas das características menos palatáveis do universo HQ, que passaram a ser motivo de riso dos telespectadores. Uma seqüência de adaptações para a tv e também animações inundou o mundo infatil nos anos 70 e 80 e criou uma geração bastante disposta a aceitar as incoerências e incongruências dos super heróis. A esse movimento da audiência, juntou-se o movimento da autoria que nos anos 80 contou com nomes como Alan "Watchmen" Moore e Frank "Dark Knight" Miller, autores que remodelaram o universo dos super heróis, dando uma roupagem adulta ao tema e novamente, como fizeram duas décadas antes os criadores da Marvel, desviando o foco das extraordinárias habilidades desses seres, para concentra-lo no seu lado humano e nos dramas psicológicos da vida cotidiana dos homens que se fantaziam para combater os criminosos. De uma vez, o trabalho desses autores concorreu para dar aos quadrinhos o status de narrativa literária séria e a geração que passara a infância vivenciando as estórias nas revistas começou a querer ver seus ídolos em carne e osso no cinema.
Desde então as produções vêem se sucedendo e o público, cada vez mais adulto e mais sofisticado, alterou o parámetro da crítica.
Uma geração que cresceu lendo as histórias em quadrinhos preocupa-se com o quão fiel é a adaptação cinematográfica ao universo original do personagem e, aí as diferenças entre os dois meios tornam-se evidentes.
Heróis sem ou com poucos super poderes têm se dado melhor com adaptações mais realistas e próximas ao meio quadrinístico, outros contam com a notável evolução dos meios e das técnicas de geração e manipulação digital de imagens para representar suas habilidades de modo realista.
A recente seqüência dos X-men e do Homem Aranha, respetivamente dirigidas por Bryan Singer e Sam Raimi são exemplares no que diz respeito à fidelidade aos conceitos desenvolvidos nos quadrinhos. O já classico Batman passou por várias adaptações, o já citado Batman de Tim Burton, o Batman - O Retorno também de Burton, o Batman - Eternamente de Joel "argh!" Schumacher, cujo visual lembrou a série de tv da década de 60 e o resultado junto ao público também, e o recente Batman Begins de Christopher Nolan, uma clara tentativa de aproximar a identidade do herói nos quadrinhos com sua representação cinematográfica.
Uma vez que a discrepância entre quadrinhos e cinema parece ser o segredo do sucesso ou a chave do fracaço para os recentes filmes de super heróis, cabe algumas observações tomando como exemplos os filmes do Cavaleiro das Trevas.
Em 1989, quando Tim Burton lançou o seu primeiro Batman, o impacto de Batman: O Cavaleiro das Trevas (Batman: The Dark Knight Returns) de Frank Miller, de 1987, ainda fazia sombra à qualquer adaptação do morcegão e a obra do Tim "esquisitão" Burton foi saldada como dígna do impacto punk causado por Miller na vida de Bruce Wayne. Hoje, dezoito anos depois, é certo que essa impressão de afinidade diluiu-se e é possível afirmar que se deveu a uma afinidade estética entre Burton e Miller e não a uma tentativa da primeiro de incorporar na trajetória cinematográfica do herói os traços desenvolvidos por Miller nos quadrinhos.
A maior prova disso é que o Batman Begins de Christopher Nolan também foi saldado como uma fiel adaptação daquelas características imprimidas ao Cavaleiro das Trevas nas histórias em quadrinhos de Miller, (inclui-se nesses admiradores do trabalho de Nolan, o próprio Miller, que deu declarações de aprovação ao filme) mas quem vê o filme mais atentamente e, após a experiência de Burton, pode dizer, com certeza, que no cinema ainda não chegou a vez do Wayne carrancudo, anarquista e solitário.
A começar pelo uniforme que os diretores insistem em modificar em relação a concepção quadrinística, o filme de Nolan, que é um bom filme, comete alguns pecados que são imperdoáveis para os verdadeiros fãs de quadrinhos, o vilão, Rãs al Grull, diverge muito de seu par - criado por Dennis O'Neal - dos quadrinhos, no sentido de ser mais megalomaníaco no cinema e não ter o apelo redentor que tem nos quadrinhos, onde se apresenta como uma espécie de reformador social. O mascarado também está mais suave e até dá presentes para um pequeno fã, enquanto escala uma parede, num comportamento típico da jocosa série de tv, na qual o morcego fazia gracinhas com os moradores que davam as caras na janela - alguns famosos decadentes em busca de "ibope"- para cumprimentar o herói.
Há também o par romântico - a sem graça Katie Holmes - imposto à trama para agradar platéias femininas ou para dissipar suspeitas homosexuais que ainda pairam sobre as pontudas orelhas do vigador de Gothan. Ainda estamos por descobrir por que os produtores consideram as fãs tão ingênuas e melosas ou por que se esforçam por desmentir algo óbvio - não é o que você está pensando. Um cara como Bruce Wayne, com a personalidade em frangalhos, não pode viver romances adocicados, ele está mais próximo de tórridas e doentias paixões com, por exemplo, a Mulher Gato e, isso sim atrairia fãs e seria mais coerente do que um romance intantil com a filha da empregada.
Assim seguem as adaptações cinematográficas. Nesse momento, o diretor Bryan Singer dedica-se à finalização do novo filme do Homem de Aço e as promessas de fidelidade aos quadrinhos se repetem. Bryan já nos presenteou com os excelentes X-men e X-men II que são fieis, dentro do respeito às regras de transposição de uma forma narrativa à outra, à melhor fase dos filhos do átomo, quando Chris Claremont e John Byrne levaram as vendas à estratósfera e os fãs, ainda hoje, sentem saudades. Resta-nos esperar para ver o quão digna será a nova aventura de Superman.

23 de out. de 2005

Polis - Érico Veríssimo

O Senhor Érico Veríssimo nos presenteou neste 23 de Outubro com uma bela contradição.
Afirma ele que o Brasil perdeu uma grande oportunidade de, pelo o que entendi, dar um passo civilizado na história da humanidade, quando votou NÃO no referendo sobre o comércio de armas. Mas há mais, o escritor também diz que a má formulação da pergunta contribuiu para o resultado do referendo e que se o questionamento fosse feito de forma clara e direta, o resultado seria outro. Não satisfeito, foi além, quando denunciou a imprensa como um elemento articulador do resultado.
Quero lembrar o Senhor Veríssimo de algumas verdades democráticas. Hoje, dia 23 de Outubro, a opinião do articulista só valeu um voto, assim como a minha. Se ele tem tamanha descrença sobre as capacidades intelectuais dos outros eleitores - para mim ficou claro que não pairam suspeitas sobre as dele -, seu discernimento, está muito bem acompanhado, deixo a ele o trabalho de consultar a história para nomear seus pares. Esse Senhor também esqueceu que exerce, ao escrever n'O Globo, o ofício de jornalista e não deve ser dos melhores, uma vez que suas opiniões reacionárias, e não ignorantes como ele qualifica aqueles que dele divergem, têm sido sucessivamente vencidas, um dia pela história - como no caso do apoio ao atual presidente - outro dia pela sabia, sempre sabia - até quando escolhe um apedeuta presidente da república - decisão dos eleitores.

10 de out. de 2005

In Memoriun

A Bicicleta e o Dia da Criança

Durante muito tempo, na manhã do dia doze de outubro os meninos saiam de casa, as meninas também, e as ruas ficavam cheias e, o grande barato era mostrar os presentes. Isso também acontecia no natal, mas hoje vamos falar do dia da criança.
O grande presente, grande mesmo, era a bicicleta. Alguns, a exemplo de uma propaganda que passava na televisão, pregavam lembretes pela casa toda "não esqueça a minha caloi". Era uma festa da publicidade nacional.
Hoje as bicicletas são compradas em lojas especializadas e muitas são feitas em pequenas fábricas especializadas, com materiais da era especial, bicicletas especializadas, destinadas a isso e aquilo, tudo especializado e artificial. Mas, naquela época não, a gente metia a mão na graxa mesmo. Manda um desses kids pasteurizados abrir uma catraca pra ver, esses meninos entende é de apertar botão. Máximo de especialização que havia era optar por uma Caloi Berlineta ou uma Monark Monareta e isso era uma escolha das mais difíceis. Esse negócio de especialização começou com a BMX da Monark e a Caloi 10, mas essa é outra história.

A Berlineta era um charme, uma paixão, toda bonitinha, sem nenhum ângulo reto, mas a Monareta, na hora de ajustar a altura do guidão ou do banco, era pura praticidade.
Eu preferia a Berlineta, tive uma verdinha como a da foto. Dane-se a praticidade, sempre gostei de beleza, se gostasse de praticidade casava com uma vaca, se é que me entendem? Mas, que dava um trabalhão ajustar o guidão, ah isso dava. Primeiro tinha que ter chave de boca, depois tinha que ajustar um lado de cada vez e tinha que ficar cetinho. Quantas vezes não vi nêgo andando com a bicleta toda tronxa. Tinha gente que chamava até o pai.
O disign das duas bicicletas, apesar das diferenças, tinha alguns méritos e deméritos comuns. O primeiro mérito é que elas foram feitas para crianças (ou seres de pernas curtas), para os cavalões tinha a Barra Forte da Caloi e a Barra Circular da Monark, nessas dava até para levar a gatinha no quadro, no caso da Barra Forte o quadro era acolchoado, o que nos leva de volta aos méritos hergométricos de nossas duas princesinhas e ao problema da Caloi Ceci, que não vou tratar aqui, mas que cabe perguntar porque bicicleta de mulher tem que ter quadro baixo. Além de servir de banco para as gatinhas - para você ver até que ponto as mulheres são capazes de descer ou subir, depende do ponto de vista ou do gosto -, o acolchoado do quadro da Barra Forte também servia como protetor do material genético do ciclista.
Eis a grande sacada dos engenheiros da Caloi. Outro dia o The New York Times publicou que a prática do ciclismo causa impotência, a Caloi sabia disso desde a década de 1970.
Tive um amigo, que se chamava Rodolfo, mas que entrou para história como Rodolfo Velho (era loirinho, cabelo quase branco) Ovão, por motivos óbvios. O sujeito tinha uma Monareta, mas gostava mesmo era de andar na Barra Circular do irmão mais velho e usava os meios-fios (nunca sei como se escreve isso, me perdoem) para parar e descer, numa dessas o pezinho escorregou do meio-fio e lourinho ficou alcunhado, digo aleijado.
Essa, sem dúvida, era uma qualidade a se exaltar, como eu disse, no disign das duas bicicletas.
E o defeito?
Em nenhum dos dois projetos houve preocupação com o carona. O acento do carona fica abaixo da posição do piloto. Primeiro que era muito baixo, pra andar tinha quer ser anão, pelo menos da cintura para baixo, se não os pés arrastavam e, segundo, que em caso de flatulência do condutor. Aí, vigi maria....
Mas, essa era uma desvantagem relativa dessas duas perólas da engenharia nacional. O condutor também podia ser condutora. Aí, vigi maria...

5 de out. de 2005

A que ponto....

Os Dez Mandamentos

Queria inaugurar essa sessão de grandes constatações e reflexões inúteis com uma profunda abordagem de um dos dez mandamentos:
"Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão". Êxodo 20.7.
Esse mandamento em particular, sempre me intrigou. Quem julga se eu tomei ou não o nome do Senhor em vão?
A Bíblia está repleta de passagens onde somos levados a acreditar que tudo que pedirmos com fé, conseguiremos. Então, o que é um pedido vão.
Deus desencrava a minha unha... Isso é um pedido vão? E um carro novo? E a cura do câncer? Ah! Cansei, não dá para saber o que é um pedido vão. Depois tem gente que fala quer ser indiano é que é difícil.
Acho que tem um jeito de saber. Se eu pedir para desencravar minha unha e o milagre acontecer, aí é um pedido vão. Gastei um milagre á toa. Poderia ter pedido para ganhar na mega sena. Então cuidado com o que você pede, pode ser que você consiga.

22 de set. de 2005

No Escurinho do Cinema (Segredos e Mistérios)

Os segredos e sustos

Invariavelmente ele atravessava uma cena no meio dos seus filmes. Essa é uma das melhores coisas sobre os filmes de Alfred Hitchcock. Esperar o momento em que o gordinho careca aparece.
A outra coisa interessante sobre esse inglês excêntrico, para dizer o mínimo, é que sua obra tornou-se sinônimo de um gênero cinematográfico, o suspense. Então, o grande lance é tentar descobrir, no decorrer do filme, como é o desenlace final. Invariavelmente, erra-se.
O próprio Hitchcock é um completo enigma. Ao mesmo tempo que é um dos sujeitos mais biografados da história do cinema, também é um daqueles casos em quase ninguém concorda com nada. Ele é retratado como sendo desde um mero trabalhador da indústria que repetia a mesma fórmula de sucesso sempre, ou até mesmo como sendo um verdadeiro gênio inventivo que criava obras de indiscutível valor estético e cinematográfico.
Seja como for a carreira de Hitchcock iniciou-se ainda no cinema mudo em 1925 com um filme chamado The Pleasure Garden (O Jardim dos Prazeres). Nunca vi, mas com esse título e saído da complicada cabeça do mestre, dá até vontade, apesar dos comentários dizerem que o filme é mediocre e que não foi concluído. Note-se, como dado importante e contraditório, o fato desse criador oriundo do cinema mudo ser um dos diretores que melhor utilizou a música como elemento narrativo na sétima arte. Alfred filmou mudo mais 09 filmes até 1929, quando encerrou essa "fase" com The Manxman (O Ilhéu). Seu primeiro filme sonoro é Blackmail (Chantagem e Confissão) de 1929, ainda filmaria na Inglaterra mais 17 filmes, até 1949, ano de lançamento de Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio), perfazendo 26 filmes ingleses.
Mesmo antes de ir para os Estados Unidos a, digamos assim, identidade estética de Hitchcock já estava definida, aliás desde o início o crime e o mistério aparecem como elementos principais de seus enredos, sendo seu terceiro filme The Lodger (1926) uma estória envolvendo ninguém menos que Jack, O Estripador.
Em 1949, Hitchcock atirriza em Hollywood já dando as cartas, uma vez que Rebeca (Rebeca, A mulher inesquecível) de 1940 fora agraciado com a estatueta da academia. Produziu freneticamente, justificando, muitas vezes a diferença na qualidade dos filmes. Mesmo assim, fez filmes brilhantes como Strangers on a Train (Pacto Sinistro) em 1951, Dial M for Murder (Disque M Para Matar) e Rear Window (Janela Indiscreta) em 1954, neste último não tivesse feito mais nada, a presença de Grace Kelly já valeria o ingresso. Mas teve mais, To Catch a Thief (Ladrão de Casaca), em 1955, The Trouble with Harry (O Terceiro Tiro), em 1956, The Man Who Knew Too Much (O Homem que Sabia Demais), em 1956, Vertigo (Um Corpo Que Cai), em 1958, North by Northwest (Intriga Internacional), em 1959, Psycho (Psicose), em 1960, The Birds (Os Pássaros), em 1963, Marnie (Marnie, Confissões de uma Ladra), em 1964, isso tudo só para citar os que eu acho melhores. O sujeito trabalhava muito e trabalhou até 1976, rodando um total de 44 filmes e ainda fez uma série de tv.
Não é exagero em dizer que Hitchcock criou o gênero suspense e desenvolveu seus principais elementos narrativos. O suspense à modo Hitchcock tem ação, mas não essa correria que estamos acostumados, pode-se dizer, por exemplo, que as sequências formadas por cortes rápidos, câmera em movimento e bruscos constrates estão presentes da obra de Hitchcock, como em Os Pássaros, mas não é nada como as sequências do mesmo tipo apresentadas em O Homem Aranha de Sam Raimi. Os elementos clássicos estão presentes e muito bem representados no filme do herói aracnídeo, mas em Os Pássaros esses elementos são apresentados em sua pureza, sem que Hitchcock os trate com reverência, deixando-os fluir com naturalidade. Com o susto é mesma coisa, o enquadramento das sequências, com o espectador em posição privilegiada, a música, como elemento pautador da tensão, tudo isso é Hitchcock, mas quando vemos isso sendo empregado em muitos filmes modernos temos a impressão de estar diante de algo gasto, repetitivo, exaurido... em Psicose, por exemplo, o timing dos sustos é perfeito, somos conduzidos por uma escada, de degrau em degrau e, de repente, ele nos solta, mas não como agora, quando a cada passo, pressentimos o tombo. Tanto é assim, que se pode ver o filme seguidas vezes, até uma atrás da outra, sem que os momentos tensos fiquem monótonos. O emprego da música também é magistral em Psicose e Um Corpo que Cai, o mestre dá aulas sobre como trilhar um filme.
O impacto da obra de Hitchcock na produção cinematográfica moderna é muito difícil de mensurar, mas basta dizer que o inglês deixou seguidores confessos como Brian de Palma que com o seu Dressed to kill (Vestida para Matar), de 1980, executa uma homenagem despudorada a Hitchcock.
A verdadeira medida da durabilidade da tradição iniciada por Hitchcock é a enxurrada de filmes de suspense que inunda os cinemas todos anos desde que David Fincher, em 1995, nos apresentou Seven (Os Sete Crimes Capitais) e aqueles que não conhecem a obra de Hitchcock ou torcem o nariz para filmes antigos passaram a se deleitar com a última novidade de Manoj Nelliyattu Shyamalan, ou simplesmente Night, sem dúvida um herdeiro que não relega o mestre, tendo até a mania de aparecer nos filmes.
O indiano maluco compôs, por enquanto, uma exótica e coerente quadrilogia que iniciou-se em The Sixth Sense (O sexto Sentido), de 1999, onde ressucitou Bruce Willis, até então apenas marido da Demi Moore e o Rato de A Gata e o Rato, lembra? Além desse empurrão na carreira do Rato, o filme é uma aula de cinema, onde o diretor mostra como a manipulação dos elementos da narrativa cinematográfica pode levar o espectador à diferentes experiências e conclusões, sem dúvida um tributo a Hitchcock. Depois, foi a vez de Willis agradecer fazendo Unbreakable (Corpo Fechado) em 2000, nesse o senhor da Noite nos brinda com uma gostosa e singela dedicatória ao mundo dos quadrinhos de superheróis, pena que o título em português afugente alguns espectadores, pois ficou parecendo coisa de macumba, mas os elementos do suspense e dos superheróis estão todos lá. Sobre esse ponto, não tenho dúvida em dizer que, mesmo com a avalanche de filmes baseados em quadrinhos que são lançados atualmente, Corpo Fechado ainda é o melhor, não sei como ninguém ainda não pensou em adapta-lo para a banda desenhada. Mas Night não parou e, em 2002 trouxe Signs (Sinais), uma gostosa divagação sobre extra-terrestres e sinais deixados nas plantações do mundo inteiro. Em 2004, foi a vez de The Village (A Vila), mais uma boa dose de suspense e o manifesto de Night em repúdio a civilização urbano-industrial, que não produz laços verdadeiramente comunitários entre as pessoas. Antes dessa quadrilogia, Night fez mais dois filmes pouco conhecidos do público brasileiro, que são Praying with anger (sem título em português), de 1992 e, Wide Awake (Olhos Abertos), de 1998.
Não pensem que Night é apenas um plagiador de Hitchcock. Não, os personagens do cara tem uma força interior, uma complexidade que é minuciosamente dissecada na tela e entregue ao expectador, nos fazendo cúmplices da trama. Essa é a grande marca de Night.
Agora, é só passar na locadora e pegar os filmes de Night e Hit.